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A fosfina e a vida alienígena em Vênus – pertinho!?

Por Andrés Méndez

Desde os primórdios da história do Homo sapiens, nossa espécie mostrou-se muito curiosa e hábil em entender os fenômenos da natureza. A sobrevivência dependia disso. Nos dias de hoje, nosso modo de vida é totalmente dependente da aplicação do conhecimento sobre o mundo natural. Esse conhecimento, histórico e culturalmente construído, foi acumulado, organizado e aperfeiçoado por nós, e temos sido bem eficientes em transmiti-lo de geração em geração. Certamente, o entendimento, a apropriação, o uso e a transmissão cultural dos fenômenos da natureza são elementos centrais na evolução da humanidade e atualmente sustentam o modo de vida de uma sociedade complexa e altamente dependente e integrada com a tecnologia.

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Perguntas tão instigantes e antigas como a própria humanidade – de onde viemos? Para onde vamos? Estamos sozinhos? – podem ser agora respondidas dentro de um contexto totalmente diferente e promissor. Em pleno 2020, responder estas questões é empolgante e motivo de orgulho para a Humanidade, pois mostra como a ciência evoluiu e estabeleceu-se como a forma mais elegante e fidedigna na busca pelas melhores respostas sobre a natureza, mesmo que para alguns essas respostas não sejam as mais reconfortantes.

“Precisamos ter cautela em assumir a presença de vida alienígena na atmosfera de Vênus.”

Essa busca por respostas nos remete a uma atividade humana bastante antiga, simples e comum: olhar para o céu! Sim, muitos fenômenos da natureza foram entendidos e incorporados pelo Homo sapiens observando e analisando o movimento dos astros. Essas observações renderam muitos frutos para diferentes civilizações. Aprendemos a marcar a passagem do tempo. Entendemos a periodicidade das estações do ano e os melhores meses para plantar, colher, caçar e estocar alimentos. Os astros também foram muito utilizados para confeccionar mapas e cartas de navegação que orientaram grandes expedições exploratórias ao redor do planeta. Astrônomos/astrólogos foram importantes conselheiros de reis e imperadores. Prever eventos astronômicos, como um eclipse, rendia prestígio, altos dividendos e altas honrarias. Outras derivações fascinantes da observação dos astros são de natureza simbólica e mística, e ajudaram a formar o alicerce de inúmeras superstições, mitos, lendas, crenças e religiões. É interessante observar também a intrincada e complexa relação que a nossa espécie estabeleceu entre os astros e eventos do nosso cotidiano, como rituais e festas – aliás, feliz natal, além da controversa, interessante e improvável relação entre certas características humanas e o posicionamento dos astros na hora do nascimento – o leitor já consultou seu horóscopo hoje?

Buscando boas respostas
Nos dias de hoje, o avanço tecnológico nos faz olhar de maneira diferente para o céu. “Armamos” tecnologicamente nossa visão e construímos telescópios, radiotelescópios, satélites, sondas… desenvolvemos tecnologias de ponta que confluem para nos mostrar um retrato cada vez mais amplo e fidedigno do Universo. Um exemplo disso é a primeira imagem de um buraco negro apresentada ao mundo em abril de 2019. Esse feito é considerado um marco na astrofísica e foi desenvolvido por uma rede colaborativa de radiotelescópios espalhados pelo planeta, no escopo do projeto Event Horizon Telescope (EHT), num nobre exemplo de cooperação humana para desvendar os mistérios da natureza. Que maravilha, né… e pensar que lá atrás começamos a investigar e intervir na natureza apenas pela necessidade de entendê-la para nossa sobrevivência.

“Se houver vida na atmosfera de Vênus, ela será bem simples, microscópica e bem diferente do que a nossa imaginação gostaria.”

Recentemente, em 1995, uma das perguntas fundamentais da Humanidade (“estamos sozinhos no universo?”) começou a obter respostas mais robustas. Pesquisadores da Universidade de Genebra nos apresentaram o primeiro exoplaneta – o 51 Pegasi b – ,o que se tornou um marco da astronomia mundial. Exoplanetas são planetas fora do sistema solar que orbitam ao redor de uma estrela, tal qual como a Terra orbita ao redor da nossa estrela, o Sol. Atualmente, conhecemos mais de 4 mil exoplanetas e outros milhares aguardam confirmação. Evidentemente buscamos exoplanetas com condições que permitissem a origem, a diversificação e a manutenção da vida. Os mais promissores são aqueles que se encontram na “zona habitável” do seu sistema planetário. De maneira bem simplificada, podemos dizer que o exoplaneta não pode estar nem muito perto nem muito longe de sua estrela, o que permitiria que a água estivesse em estado líquido, e essa estrela deveria fornecer a energia necessária para sustentar a vida. Nosso planeta, evidentemente, está na “zona habitável” do sistema solar. Viva a nossa estrela – o sol! Reparem que buscamos vida baseado no único tipo de vida que conhecemos (a vida na Terra), mas poderemos encontrar formas de vida totalmente diferentes da configuração biológica terráquea, que é baseada em moléculas orgânicas formadas por cadeias de carbono (C): DNA, RNA, proteínas, carboidratos e lipídios. Seria muitíssimo interessante encontrar algo muito diferente!

Para auxiliar nessa empreitada – a busca por vida alienígena -, os cientistas cunharam o termo bioassinatura, que se refere à presença de traços de atividade biológica, que indicaria a presença de vida em outros locais do universo.

Nesse contexto, em setembro de 2020, um grupo de cientistas publicou, na prestigiada revista científica Nature Astronomy, a descoberta de um gás na atmosfera de Vênus – a fosfina –, que foi interpretada como uma bioassinatura. Essa molécula poderia indicar a presença de vida alienígena no próprio sistema solar, mais perto do que imaginávamos – “no quintal de casa” –  e ainda num ambiente inusitado e inóspito, pois a atmosfera de Vênus é o próprio “inferno” na Terra, aliás, no sistema solar – atmosfera muito densa, pressão altíssima, nuvens de ácido sulfúrico e temperaturas de cerca de 467 °C.

A fosfina é uma bioassinatura?
Todo o alvoroço no meio científico gerado por essa descoberta na atmosfera venusiana se deve a uma molécula bastante simples, a fosfina, formada por um fósforo e três hidrogênios (PH3), muito semelhante a uma molécula muito comum em nosso planeta, a amônia (NH3).

“Buscamos vida baseado no único tipo de vida que conhecemos, mas poderemos encontrar formas de vida totalmente diferentes.”

Sabemos que, aqui na Terra, a fosfina é gerada por atividade biológica de seres denominados extremófilos – que habitam regiões em condições extremas -, vivendo na ausência de oxigênio, como bactérias e fungos. Sim, é importante ressaltar que se houver vida na atmosfera de Vênus, ela será bem simples, microscópica e bem diferente do que a nossa imaginação gostaria.

Contudo, em determinadas condições, postula-se que a fosfina pode ter origem abiótica – sem atividade biológica –, por meio de eventos geoquímicos ou fotoquímicos. Por esse motivo, antes de o estudo ser publicado na Nature Astronomy, o grupo de cientistas tentou esgotar as possibilidades abióticas. Assim, segundo os autores, a concentração de fosfina nas nuvens de Vênus apontava para a necessidade de uma geração constante desse gás, indicando que a fonte da fosfina seria algum tipo de metabolismo biológico.

Contudo, rapidamente, surgiram artigos que contestaram a fosfina como uma bioassinatura, jogando um balde de água fria na comunidade científica e no público em geral. Essa refutação é bem-vinda e faz parte da dinâmica da ciência, e ocorre por um processo denominado revisão dos pares. Esse processo é essencial na concepção científica atual, e consiste em submeter as hipóteses e as teorias ao escrutínio de um grupo especializado de revisores cientistas, que analisa aspectos metodológicos e determina a validade e a relevância das conclusões submetidas às revistas científicas.

De fato, por mais entusiasmados que estejamos, precisamos ter cautela em assumir a presença de vida alienígena no “quintal de casa” – na atmosfera de Vênus. Temos indícios, mas ainda não há consenso se realmente a fosfina é uma bioassinatura e, assim, um sinal irrefutável da presença de vida em Vênus. Uma consequência prática e alvissareira dessa descoberta é que, num futuro próximo, polpudos recursos serão destinados à exploração da atmosfera venusiana, lançando luz sobre essa pergunta que se confunde com a própria humanidade – estamos sozinhos no universo?

Se realmente a fosfina for um indício inequívoco da presença de vida em Vênus – uma bioassinatura – , estaremos diante de algo fantástico, sem precedentes na história humana, algo que será um divisor de águas e certamente o marco mais importante da História da Humanidade até o momento.

A descoberta de vida em Vênus ou em outro lugar do universo trará novas e instigantes perguntas, e levará a humanidade a fazer uma ampla reflexão sobre as nossas crenças, valores e sobre a nossa própria existência. Será fantástico! Viva a vida! Viva a ciência!

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