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“Só conseguimos acessar ajuda quando quebramos nossa autossuficiência”, diz psicóloga

“A educadora dos pés descalços”. Assim se apresenta a psicóloga e psicopedagoga Karina Okajima Fukumitsu. Especialista em suicidologia, ela conversou com a comunidade do Centro Educacional Pioneiro no último sábado (17) sobre o assunto. Karina é uma das especialistas que assessora o Pioneiro no atendimento aos estudantes e suas famílias que passam por situações de crise emocional e/ou psicológica, como processos autodestrutivos, luto e prevenção ao suicídio.

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Infelizmente, com a continuidade da pandemia do novo coronavírus, crianças e jovens apresentam cada vez mais sinais de depressão, crises de ansiedade, síndrome do pânico e até ideação suicida. E o quadro tem se agravado. Frente a essa situação, o Pioneiro poderia ignorar e deixar as questões a cargo somente das famílias ou poderíamos unir forças, abraçar e encarar isso juntos. Segundo a diretora geral Irma Akamine Hiray, “nossa escolha foi entender, estudar e acolher”.

Por isso, no primeiro encontro do Escola da Família de 2021, recebemos Karina Fukumitsu para contar um pouco do processo de formação que desenvolve com os profissionais da escola e conversar com pais e responsáveis sobre crises, acolhimento, importância de aceitar os limites de cada um e seus próprios, entre outros assuntos. A live completa pode ser assistida na íntegra até dia 15 de maio pelo link.

Confira abaixo as respostas da Karina para as perguntas feitas pelo chat no dia do encontro.

“Alguns alunos trazem muita solidão e tédio. Estranho seria se você não se sentisse entediado”

Pergunta – Estamos numa grande terapia familiar intensiva de um ano com a pandemia. Mas será que mesmo mais próximos fisicamente estamos nos apoiando emocionalmente, estamos dialogando sobre nossas emoções?
Karina Fukumitsu – Acredito que muitas vezes [a questão] não é só “distanciamento x presença física”. A proximidade física é a nossa capacidade de a gente se permitir emocionar. Eu acredito que quando a gente se emociona, isso é a evidência empírica de que a gente está vivo. Aquele que controla muito as emoções, aquele que se impede de se emocionar, torna-se um objeto. Muitas vezes a gente se assemelha a um objeto achando que a gente não pode viver emoções.

Quando você faz esta provocação de que se realmente estamos dialogando sobre as nossas emoções, está dando crédito para que as nossas emoções sejam as nossas marcas – marcas vividas e autorizadas, porque senão eu me assemelho um objeto. Portanto, é importante que nós, ao invés de controlar, aceitemos e lidemos com as nossas próprias emoções, para nosso bem. 

Lembro de uma história que diz que dentro de nós sempre existem dois lados: um cachorro bravo e um cachorro extremamente bonzinho Perguntaram para o mestre qual dos dois lados ganha. E o mestre responde: “aquele que eu alimentar”. 

A possibilidade de lidarmos com as nossas emoções é poder entender que não é sinal de fraqueza se você chora, não é fraqueza se você pede ajuda, não é fraqueza se você se sente envergonhado ou com raiva de alguém. Pelo contrário, você deve aprender a aceitar estas emoções e dar uma direção diferente para você não se autodestruir e para você ampliar sua forma de comunicação.

“Não cuide da pessoa do jeito que você acha melhor. Pergunte e tente escarafunchar a maneira como essa pessoa se sente cuidada.”

Pergunta – Como podemos apoiar quem não aceita ajuda? Meu filho não demonstra abertura, mas mostra que precisa de ajuda. Como aos poucos introduzir um diálogo nessas situações?
KF – Vou começar falando como a gente pode apoiar quem não aceita ajuda: talvez perguntando “como é que você se sentiria ajudado?” Porque “acolhimento” é uma via de mão única – eu posso oferecer meu colo. Já “cuidado” é via de mão dupla. Muitas vezes, cuidamos do outro achando que a nossa maneira de ajudar é a melhor, mas muitas vezes isso é engano. 

Não cuide da pessoa do jeito que você acha melhor. Pergunte e tente escarafunchar a maneira como essa pessoa se sente cuidada. Por exemplo, tem muita gente que sabe que eu adoro música e me manda música. Tem muita gente que sabe que eu gosto de comer algumas coisas e me mandam comidinhas. Mas isso é ajuda? Também é.

Tem uma frase do livro “As Vantagens de Ser Invisível” que fala que a gente só aceita o amor que a gente acha que merece. É difícil ajudar quem não aceita ser ajudado, só que a ajuda não pode ser à nossa maneira. É uma situação em que a gente cada vez mais tem que se aproximar das preferências da pessoa, da sua singularidade. 

Agora, e como dialogar com meu filho se ele não demonstra abertura? Talvez você possa contar um pouco do teu dia a dia. Isso tem funcionado. Você oferece abertura para ele contando algumas situações que aconteceram, trazendo e puxando papo. E talvez em algumas situações você possa trazer momentos e fragmentos da sua história em que você ficou triste, sentiu-se perdida. Quando fazemos isso, olhamos para o nosso sofrimento e é bem possível que consigamos ofertar esse tipo de abertura. Não adianta você chegar para quem é fechado perguntando “como é que você se sente?”. 

Lembro-me de um trechinho do livro “As bênçãos do meu avô”. O avô deu à neta um copinho de papel e falou “regue todos os dias que de repente a vida vai te surpreender”. A neta regou durante muito tempo mas depois parou. O avô disse que não havia problema, mas para ela continuar regando. Um dia nasceram dois brotinhos de planta e ela foi contar ao avô. Ele perguntou “você sabe o que fez com que a vida pudesse aparecer?” e ela respondeu “regar todos os dias”. Então ele disse “não, o que fez com que a vida pudesse aparecer foi a tua lealdade”. 

O que vai fazer com que seu filho possa falar é a sua lealdade de querer se comunicar e acessá-lo. Faça diferente, tente diferente. Alguma abertura você vai encontrar desde que você permaneça na sua lealdade de acessar o seu filho. Mas temos que ser criativas e diferentes. Acredite. Continue.

“É importante que nós, ao invés de controlar, aceitemos e lidemos com as nossas próprias emoções, para nosso bem.”

Pergunta – Os estudantes que tentam tirar a própria vida já dão indícios anteriores que algo não vai bem. Quais indícios que nós, educadores, podemos acompanhar no comportamento antes de chegar nesse limite?
KF – Principalmente em relação à escola, o baixo desempenho, as notas que vão caindo, as dificuldades. Principalmente agora na aprendizagem online, se os estudantes não entregarem as lições vale a pena nos aproximarmos para ver cada situação. Cada situação é única e especial no sentido de tentar entender o que está acontecendo com esse aluno.

Tem alunos que fecham as câmeras. Há uma certa conveniência, e eu acho isso muito importante, porque não é por fechar a câmera que ele está fugindo. Talvez tenha necessidade inclusive de se resguardar, de se proteger. Precisamos parar de exigir que todo aluno fique na frente da câmera. Nem a gente consegue ter paciência para ficar tantas horas sentado. 

Outros sinais de alerta: isolamento (principalmente em casa, e por isso que é importante a comunicação com a família) e agressividade. Alguns alunos escancaram a dor e falam com alguns professores. Precisamos escarafunchar onde está essa dor, como é que está essa dor e qual é o tipo de encaminhamento que podemos oferecer para ela. Ou seja, como é que ele(a) quer ser ajudado.

Alguns alunos trazem muita solidão e tédio. Estranho seria se você não se sentisse entediado, porque tudo mudou. A maneira como você lidava com seu tempo mudou, precisamos confirmar o sofrimento e pensar com esta pessoa alternativas para ela lidar com o gerenciamento de crise. Todas as vezes que qualquer sentimento é exposto, vale a pena conversar qual é o significado deste sentimento e dessa emoção para esta pessoa.

Existem outros indícios: dificuldade para dormir ou dormir demais, muita tristeza, inclusive os sinais verbais. Alguns alunos falam para os amiguinhos e aí os amiguinhos vêm falar com a gente. Temos que levar muito a sério. Estamos numa fase em que os amiguinhos sabem mais dos nossos filhos do que a gente. Precisamos criar redes de proteção – não é ficar “cagoetando”, falando sobre a situação, mas é informar para formar possibilidades de a pessoa lidar com o sofrimento dela.

“Acolhimento é uma via de mão única. Já cuidado é via de mão dupla.”

Pergunta – Para ajudar o filho adolescente sofrendo pressão do vestibular, como manter os limites (hora de sono, tempo no celular, etc) sem fazer uma pressão maior? 
KF – Acompanhando qual é o limite do seu filho. Você cresceu com uma certa disciplina, que é diferente da disciplina do nosso filho. É importante perguntar para ele como é que ele gostaria de gerenciar o próprio tempo e aí você faz acordos e organiza com ele o tempo e o espaço. “Quanto tempo você se dá sabendo que você tá prestes a prestar um vestibular e vai precisar se dedicar? Então fique no celular menos tempo para você estudar” e é isso, tem que fazer acordos. Não adianta falar “você não vai usar o celular” porque ele vai usar sim, inclusive o celular hoje é o nosso único meio de acesso ao mundo. É preciso gerenciar. Eu acho que é importante você combinar com seu filho e fazer uma programação de rotina, em que ele mesmo possa se dar quanto tempo vai precisar para cada atividade. 

Sabe a proximidade distante? Não pode ficar sufocando o seu filho porque ele é adolescente e vai odiar se você ficar em cima. Então você fica de olho numa proximidade que acompanha e num distanciamento que permita com que ele possa viver essa adolescência.

Pergunta – Lindo trabalho! Pena que muita gente não busca acompanhamento psicológico por preconceito ou falta de condições.
KF – Ainda é muito mais pelo preconceito porque é possível encontrar pessoas e profissionais que atendam a preço solidário. Então eu acho que é muito mais em relação ao preconceito e condições emocionais de achar que o psicoterapeuta vai ser aquele que vai ter que fazer tudo por você. É engano, é um mito e cada vez mais precisamos olhar para o nosso autoconhecimento. Só conseguimos acessar ajuda quando a gente quebra um pouco da nossa autossuficiência. E quando nos sentimos muito em sofrimento, é hora realmente de você pedir ajuda técnica profissional.

Cada um tem a sua própria responsabilidade existencial e se você não fizer por você, ninguém vai fazer. Temos certa habilidade e responsabilidade existencial que nos dá a oportunidade de conquistar o nosso bem-estar e eu acho que é muito mais difícil para um ser humano ficar bem do que ficar mal. Não suportamos ficar sem nenhum problema, ficar bem. A gente estranha, tem aquela ideia de que depois de toda bonança vem uma tempestade.

Pergunta – Muitas vezes, no mundo corporativo, nos cobramos e somos cobrados para fazer mais e mais. Como lidar com esse mundo corporativo cada vez mais competitivo e como educar nossos filhos para esse mundo?
KF – A primeira coisa é você também trabalhar essa ideia de quem dá mais do que pode, já tá dando o que não pode. No mundo corporativo somos cobrados, mas você vai ser aquilo que você pode ser, e você precisa ser a referência – inclusive para educar os seus filhos. Se a gente não tem um certo freio no nosso workaholismo, teremos filhos workaholics. Vamos buscar uma forma de você equilibrar a sua própria exigência produtiva porque uma das coisas que eu sempre falei é que “o ter é a falência do ser”.

Tem uma hora em que você precisa falar “eu estou fazendo o meu melhor para o outro e não para mim”. Existe aí uma certa incongruência que precisaremos rever. É a metáfora da máscara de oxigênio: colocar primeiro em você. Sobreviva neste mundo caótico que é um mundo de exigência produtiva, alinhe-se naquilo que realmente você pode fazer e seja a referência para os seus filhos.

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